Horóscopo

Leitura de um horóscopo qualquer:

 No último dia do tempo de áries, a Lua em Escorpião ativa a quadratura entre Marte e Plutão que tem sido o coração do clima tenso que está dominando o céu há várias semanas. Ao mesmo tempo, o entusiasmo da cunjunção entre Júpiter e o Sol e o imaginário romântico de Vênus em Peixes nos ajudam a encarar as crises sucessivas com um mínimo de esperança e otimismo.

 A palavra “astro” vem do latim “aster” e significa estrela. Por isso que a gente fala “desastrado”, que é aquele que os astros não cuidam. Ou “asterisco”, uma pequena estrelinha…

Enfim, está um clima tenso aqui, né? Eu estou sentindo, vocês estão sentindo? É a Lua em Escorpião. É até engraçado pensar nisso porque uma Lua em Escorpião é tão improvável quanto um Escorpião na Lua, mas é isso, fica esse clima assim, pesado. As coisas não dão certo, fé porque acaba o tempo de Áries e ariano é brigão, turrão, gosta das coisas muito ali, pá, pum. Pra piorar ainda tem a quadratura de Marte e Plutão e isso é tipo o fim, já está várias semanas e fica uma energia cósmica muito pesada que…eu vivo brigando e é por causa disso. Lua e Escorpião com Marte em Plutão é briga na certa, ninguém se entende, ninguém se fala.

A gente precisa aprender a controlar nossa Lua, porque fica tudo mais claro quando a Lua está clara, mas o céu, o nosso céu, está sempre nublado. Fica ali o rabinho do escorpião provocando. Então Marte vem e pffff…ferrou.

 (Muda completamente, agora se torna doce e serena.)

 Aaah, mas eu adoro esse clima assim. É que Júpiter e Sol estão juntos e mexendo com Vênus em Peixes. Ahh, é o céu. Fica um clima de romance no ar. Tudo cheirando a rosas, paixão. São os melhores dias pra conhecer o amor da vida, pra passear no parque, fazer um piquenique, curtir essa vibração cósmica energizada que rola no ar. Hoje mesmo quando eu saí de casa eu senti. Vi um menino com uma mochilinha indo pra aula e senti o clima de amor que tava rolando. Pensei na hora: “Hoje ele vai conhecer uma menina”. Depois aquele calor me alegrou, é a parte do Sol em Júpiter. Depois fui esfriando, acalmando, uma paz chegando, com Vênus em Peixes. Flutuei no pensamento, na vida e no meu mundo das ideias particular.

 (Muda novamente, agora ríspida.)

 Mas a Lua muda tudo. Esse clima num dura porque Lua em Escorpião muda tudo. Lua em Escorpião é pesado, é clima de cadeia, de briga, de filme de ação, clima de suspense.

 (Começa a oscilar entre os dois.)

 Mas por outro lado é amor, de Vênus em Peixes. Aluguei até Moulin Rouge pra ver. Mas tem Escorpião, mas tem Vênus, mas tem Lua, mas tem Peixes, mas tem Sol, mas tem Áries, mas tem Escorpião, mas tem Vênus, mas tem Lua, mas tem Peixes, mas tem Sol, mas tem Áries, mas tem Escorpião, mas tem Vênus, mas tem Lua, mas tem Peixes, mas tem Sol, mas tem Áries

 (A trilha sonora aumenta e a atriz não consegue sair do paradoxo que o Horóscopo apresentou. A vida continua. Fim.)

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Quatro Fotografias


Eu sou fotografa. Desde pequena fui criada ao redor de câmeras, filmes, flashs, luzes e estúdios de revelação. Eram tantos papéis e tantas fotos ao redor que via minha infância sempre ao redor de fotos que me olhavam. Em cada uma delas havia uma parte da história da minha família. Uma linda história de uma tradição próxima, presente, livre e reprimida. Só que eu era completamente passiva em relação. Resolvi mudar.
Pedi uma máquina de presente e ganhei uma câmera tijolo com aquele filme comprido pra levar na minha primeira viagem. Não consegui tirar nenhuma foto na viagem, mas na volta, num almoço de família peguei a câmera e de um canto meio escondida tirei a foto da família inteira. Ficaram todos pequenos e distante, mas consegui pegar todo mundo: minha mãe com quatro irmãos e meu pai com dois e todos casados. Contando-se os filhos acho que na minha primeira foto saíram mais de vinte pessoas.
Depois ganhei uma outra câmera, uma Kônica modelo Tomato. Ela era linda, vermelhinha com uma proteção de lente no modelo de um tomate. Saía pela cidade tentando fotografar tudo, principalmente aquilo que você ao meu lado fotografafa. Não lembro de nenhuma foto que fiz com essa câmera.
Bem mais tarde, já na adolescência ganhei uma Pentax Asahi. Vivia com a câmera pendurada em diagonal no meu ombro esquerdo ao lado direito do meu quadril. Usava pra fotografar minhas amigas e eu queria mais que uma foto, queria movimentos, sorrisos, deslizes…Com essas câmera tirei uma foto: uma menina sentada em um gramado tentando abrir um sanduíche com a língua pra fora. Revelei essa foto no seu laboratório no subsolo da Kobe, um lugar lindo, grande e cheios de coisa que eu nunca soube pra que servia e a foto, que me parecia perfeita, acabou sendo apenas um gracejo perto de suas fotos em preto e branco penduradas no varal, com aquela luz vermelha baixa, com suas palavras de: “olha só, é mágica.”
Aí eu fiz 17 anos e ganhei um laboratório…que não durou muito. E daí comecei a levar a fotografia a sério. Ganhei uma Nikon 6006, automática, clique rápido e eu viajava com ela pra todo canto. Devia ser muito bonito nós duas, fotogrando, você com sua Nikon F4 e eu com a minha. Nunca tirei uma foto nossa tirando foto, acho que é impossível. Mas essa câmera viajou: Paris, Provence, Polônia, Israel, Chamada Diamantina, Gainesville…Apesar disso, foi uma câmera que me viu, quando fiz meu primeiro auto-retrato. Eu estava linda, apaixonada, sabia o que queria das fotos, queria contar histórias, dar sequência nas imagens.
Acontece que em todo lugar que ia não conseguia achar o que clicar. Depois de muitos e muitos anos tinha tirado apenas três fotos, uma com cada câmera: minha família, a menina do sanduíche e eu.
Resolvi fotografar pra ganhar dinheiro. Tirei fotos de produtos, de carros, objetos. Nunca havia tirado tantas fotos, todas horríveis, nenhuma que valia de nada. Não havia mais espaço pra fazer poesia em imagem. O filme ficou caro, o papel, a revelação, na tinha mais laboratório.
Foi quando você me deu a Nikon D200 e eu resolvi que poderia fazer sim coisas belas fotogrando, mas a câmera pendurada em diagonal no meu ombro esquerdo ao lado direito do meu quadril permanecia estancada. Nenhum clique saía dela, nenhuma imagem aparecia. Parece que não havia mais nada a fotografar.
Então fui nos mês álbuns de família e achei minhas três fotos, peguei e juntei as três em um canto da casa: A família, a menina do sanduíche e eu. E minha Nikon D200 clicou as três fotos dispostas lado a lado no chão. Foi minha última foto e também minha primeira.

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Três Imagens, três momentos


MOMENTO UM

Eu gosto dessa foto aqui. Ela representa uma história da minha vida, daquelas pequenas, mas bonitas, sabe? Que estão tão longe na memória que a gente nem recorda dos detalhes muito bem. Quem está comigo é minha mãe e meu irmão, eu sei que sou parecida com os dois, mas é inevitável lembrar outras pessoas que a gente também é.
Essa foi foi tirada porque minha mãe ia viajar, ia passar nove meses fora, ia para Espanha resolver algumas coisas de trabalho. Era a primeira vez que a gente ia ficar sozinho.
É claro, tinha o nosso pai, mas pai é aquela coisa, mais prático, menos sensível, às vezes até distraído. Mas, pensando na viagem e no meu pai, antes de ir, ela acordando a gente pro cabeleireiro. Sentamos eu e meu irmão numa cadeira em formato de carrinho, o dele azul, o meu rosa, e saímos os dois assim, como na foto, com cabelo igual, curto, estilo joãozinho.
Da primeira vez fui eu. Tive raiva, queria meu cabelo grande de volta, resmunguei e no fundo tive até vontade que minha mãe fosse embora mesmo. É que eu não sabia ainda o que eram nove meses. Fechei a cara até seu embarque, só quando o avião começou a andar que senti vontade de gritar o nome dela, mas meu pai, de mãos dadas com a gente já estava dizendo: “pronto, já foi, vamos para casa.”

MOMENTO DOIS

Eu estava parecida com meu irmão, sabe? Mas os cabelos, meu e dele, aos poucos iam crescendo. Eu me olhava no espelho e tentava ver a minha mãe, o cabelo grande dela, andando pela casa, fazendo as coisas, sempre tão segura do que devia fazer. Então eu resolvi passear meu cabelo curto pela casa durante o dia. Meu pai colocou duas babás pra cuidar de mim e do meu irmão e elas ficavam tentando fingir que se importavam. Mas, se a gente prometesse não morrer, podia fazer qualquer coisa. No meu passeio via os cômodos grandes…
E sentia uma coisa…
Era como se…
Minha mãe tivesse deixado as histórias das coisas ali…
Pra eu lembrar…
Então eu comecei a esconder algumas coisas delas, só pra depois tentar achar.
Eu pegava uma…
Duas…
Três blusas e colocava em lugares diferentes. No dia seguinte fazia o mesmo…
Até que a casa foi ficando vazia, o armário vazio de roupas escondidas.
Quase todas na lavanderia.
Algumas na garagem.
Embaixo do colchão.
Meu pai não via nada daquilo, parece que passava alheio e só o que ele sentia falta mesmo era minha mãe.
Mas eu sentia falta daquela que usava as roupas, sabe? Não importava quem fosse…

MOMENTO TRÊS

Até que os meses se passaram e minha mãe voltou. Ela não tinha mudado tanto, era quase a mesma, cheia de saudade, histórias e presentes. Ela contou que toda nossa família que mora lá estava ansiosa pra conhecer a gente e mandou presentes, que chamam regalos lá. Eu fui correndo abraçá-la e ela veio também para mim e meu irmão. Ela passou a mão no nosso cabelo, disse: “nossa como vocês cresceram, olha esse cabelão”. Eu sorri, mas meu irmão não.
Da segunda vez foi ele. Parece que não gostou nada de ficar com o cabelo grande, parecido com de uma menina, parecido comigo. Agora era ele que se sentia parecido comigo e com minha mãe, era ele que sentia necessidade de esconder as coisas, de se esconder. Mas tudo isso durou pouco. Minha mãe pegou a gente pela mão e foi até o cabeleireiro. Agora, ficou meu irmão no carrinho azul e eu sentado do lado dela: meu cabelo ia continuar grande. Foi a sensação de todo mundo naquela tarde: tudo voltava ao normal, os meninos de um lado e as meninas do outro, família completa.

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Direto ao Ponto

Matéria de Ponto Fraco por Renata Magalhães

Os limites que dividem realidade e ficção são cada vez mais estreitos. Quase toda história atual passeia entre a biografia e o imaginário. Esta temática, já bastante explorada em livros e telas de cinema, aparece renovada no espetáculo teatral Ponto Fraco, que estreia dia 28 de novembro na UNIRIO. Com direção de Leandro Romano e texto de Luiz Ribeiro, a peça é estruturada a partir de depoimentos de três meninas aparentemente comuns, que contam casos que poderiam facilmente ter acontecido com qualquer pessoa da plateia.

As atrizes Elsa Romero, Julia Bernat e Larissa Siqueira dividem o palco, e, durante o espetáculo, contracenam ou fazem monólogos. Cada história é real e ficcional ao mesmo tempo. “A ficção depende da realidade para ser verossímil e ter credibilidade, enquanto que a realidade depende da ficção para organizar o caos que é o mundo”, explica Luiz. É essa dúvida que prende a atenção da plateia, que sai do teatro questionando se aquilo foi vivido pelas personagens ou se tudo não passou de boa interpretação das atrizes.

O espetáculo foi concebido por Leandro Romano depois de fazer um estudo sobre ficção e o real. Com a ideia elaborada, ele formou uma equipe, que realizou pesquisas sobre o tema e, posteriormente, atividades práticas. A partir dos exercícios, o texto de Ponto Fraco foi montado com base em depoimentos das atrizes e criações ficcionais de Luiz Ribeiro. O grupo não conta com patrocínios e produziu o espetáculo com capital próprio, além de desenvolver alternativas para arrecadação, como rifas e festas.

Cada cena traz uma analogia, mesmo que bastante sutil. O público se vê envolvido em contos de fadas e até mesmo em dramas familiares, sendo que uma história completa a outra. “As cenas de Ponto Fraco, apesar de parecerem livres, estão construindo um todo, mesmo que sutil e frágil, como é a vida”, conta Luiz. Outra questão marcante é a trilha sonora. Desenvolvida por Jayme Monsanto, ela faz com que o espectador se sinta parte do espetáculo e participante da ação dos personagens.

A peça fica em cartaz até o dia 30 de novembro na UNIRIO, na sala  Roberto de Cleto (6º andar), sempre às 20 horas. O espetáculo é gratuito.

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Parábola

Uma vez um grupo de meninas resolveu fazer um clube. Elas se reuniam em uma casa abandonada pra conversar, trocar experiências e aprender umas com as outras. Aos poucos elas foram criando alguns hábitos próprios. Desses hábitos o que mais se destacou foi o de medir coisas. Começaram medindo coisas simples como até que tamanho os grãos de feijão plantados em algodão chegavam, depois, mais na puberdade, mediram peitos e bundas que cresciam. Centímetros pra lá e pra cá eram exibidos, disputados, insinuando-se nas formas.
O tempo passava e elas continuavam a se encontrar para medir quase tudo: quanto tempo durava seus namoros, os segundos de silêncio na rua, o tamanho do maior homem que conheciam, quanto tempo durava o cheio de um perfume, quando durava um salário mínimo em suas mãos, até que apareceu a brincadeira, porque tudo era como uma brincadeira, de medir risadas.
Cada uma contava uma pequena piada e as outras calculavam o tamanho dos risos. Os critérios eram simples: o nível de decibéis e a duração. Se rissem muito, a piada era guardada. Uma delas teve a idéia de juntar as melhores partes de cada piada e fazer uma grande piada, quem sabe a maior piada do mundo. Assim, todos os dias em um mesmo horário elas se reuniam na velha casa abandonada, agora pequena perto dos imensos prédios que construídos que cercavam a habitação, e contavam pequenas histórias que serviam de pano de fundo para as piadas.
Os anos se passavam e a piada parecia não ter fim. Cada uma acrescentava dados de sua vida e a piada, aos poucos, virava uma biografia disforme delas que conviviam com Joãozinhos, portugueses, loiras, bichas, anões e tudo que era motivo de escárnio.
Com o tempo elas foram envelhecendo, e primeiro apareceram as rugas. Os peitos e bundas, outrora empinados e rijos apertados dentro de calças compradas um número abaixo, começavam a mostrar flacidez e marcas do tempo, pequenos desvios causados pela gravidade. Agora já não lhes interessava tanto medir esse tipo de coisa. A piada tomara suas vidas.
Mais algum tempo e o envelhecimento virou doença. Umas com reumatismo, outras com artrite, artrose, osteoporose, quando não um problema de memória, audição ou visão. Sintomas que cada vez mais se aperfeiçoavam, trazendo para a imensa piada cada vez mais detalhes daquilo que era grotesco, feio e disforme, daquilo que era indigno de riso. As tardes humorísticas cada vez mais extensas começaram a expor a fragilidade dos corpos desgastados pela vida.
Um dia uma delas morreu. “De velhice”, havia constatado um médico. E os risos da tarde foram trocados por um silêncio.
Perceberam que enquanto suas histórias haviam sido mirabolantes e suas piadas cheias de entremeios, recheios e graça, suas vidas foram quase sempre na vigência da execução da anedota. Suas vidas eram patéticas, dignas do mais baixo humor. O tempo havia passado e elas não tinham o que contar, simplesmente porque não andaram, apenas passaram pelas suas vidas. Suas experiências haviam se reduzido apenas àquela piada, com certeza a maior do mundo, mas que agora, depois de muitos e muitos anos, já se mostrava um tanto quanto sem graça.

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Novas influências…

Estamos voltando cheios de novas influências. A bola da vez é Yayoi Kusama, uma artista plástica japonesa que desconfigura o mundo real através de intervenções estéticas. Confira algumas fotos abaixo:

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O vício

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